A memória sanjoanense também foi construída por professoras, enfermeiras, farmacêuticas, benzedeiras, costureiras, comerciantes, cozinheiras e mulheres que sustentaram a vida cotidiana. Nem toda pessoa importante para uma cidade aparece em monumento, ata, jornal ou placa de rua. Muitas vezes, a vida coletiva é sustentada por saberes discretos: cuidar, ensinar, benzer, costurar, vender, cozinhar, medicar, organizar, acolher, visitar, ouvir, aconselhar, preparar alimentos, manter uma casa comercial, transmitir receitas e preservar memórias familiares. Em São João da Boa Vista, a seção de Personalidades do Memória Viva já aponta nomes que permitem abrir esse leitura: Anésia Martins de Mattos, Angela Sartori Batista, Chafica Antakly, Clélia Lansac Guaranha, Dirce Felipe Batista, Leonor Aparecida Bovo e Silva, Maria Hilda Leme, Maria José Fusco Corsi Scannapiecco, Maria Leonor Alvarez Silva, Matildes Rezende Lopes Salomão, Odila Blanco Martins de Almeida, Olimpia Ribeiro de Andrade, Ordália Figueiredo Ribeiro Bittencourt, Vera Faria e outras.
O foco aqui não é criar uma galeria de celebridades femininas. Esse papel já pode ser cumprido por leituras sobre Guiomar Novaes, Pagu, Orides Fontela, Maria Sguassábia e Mulheres de São João. Esta leitura olha para os ofícios, os cuidados e os saberes cotidianos. Uma professora normalista forma gerações.
Uma enfermeira de saúde pública leva cuidado a casas, bairros e campanhas. Uma médica pioneira abre caminho em ambiente profissional marcado por homens. Uma farmacêutica e comerciante combina ciência, balcão e confiança. Uma costureira veste famílias e conhece corpos, festas, lutos e economias domésticas.
Uma benzedeira guarda saberes de fé, palavra, ervas e escuta. Uma mulher que cria um sabor local, como o sorvete de macaúba associado à memória de Angela Sartori Batista no acervo, transforma alimento em identidade afetiva. Não se trata benzedeiras, costureiras ou cozinheiras como figuras folclóricas. Também não se pode reduzir professoras e enfermeiras a “vocação feminina”, como se cuidado fosse destino natural.
O correto é apresentar esses trabalhos como conhecimento, técnica, responsabilidade, presença pública e contribuição histórica. O balcão de farmácia é ponto de confiança. A escola é instituição, mas também relação diária entre professora, aluno e família. A página explica que muitas dessas trajetórias dependem de memória oral.
Mulheres que atuaram em ofícios cotidianos nem sempre deixaram grandes arquivos. Seus documentos podem estar em caixas de família, cadernos de receita, diplomas, fotografias de formatura, carteiras profissionais, anúncios de jornal, santinhos, receitas médicas, objetos de trabalho, máquinas de costura, livros de ponto, cartas e depoimentos de filhos, netos, alunos, pacientes, clientes e vizinhos. O Memória Viva pode transformar essa memória em campanha de coleta: “Você conheceu uma mulher que cuidava, ensinava, benzia, costurava, vendia, cozinhava ou preservava saberes em São João? A leitura também toma cuidado com hierarquias.
É comum que a história local valorize mais artistas, políticos, médicos homens, fundadores e benfeitores. Esta leitura propõe outro critério: importância social pela presença repetida na vida cotidiana. Uma benzedeira que recebeu centenas de crianças, uma costureira que vestiu famílias por décadas, uma professora que alfabetizou gerações ou uma enfermeira que percorreu bairros podem ser tão decisivas para a memória de uma cidade quanto um grande edifício. O tema permite conexões com saúde, educação, comércio, religião popular, alimentação e mulheres na vida pública.
Pode se relacionar à Santa Casa, às escolas, ao comércio do centro, aos bairros, à zona rural, ao Cemitério Municipal, aos jornais e às fotografias de família. É também uma oportunidade de incluir mulheres negras, pobres, imigrantes, descendentes de imigrantes, moradoras de bairros e trabalhadoras que não aparecem nas narrativas de elite. A primeira é o excesso de sentimentalismo. Frases como “mulheres guerreiras” podem soar genéricas e pouco editoriais.
Melhor dizer o que elas faziam, onde atuavam, que redes criavam e que fontes podem comprovar. A segunda armadilha é a falsa segurança. Quando a documentação é escassa, entrevistas, documentos familiares e registros de trabalho ajudam a dar nome e contexto a essas trajetórias. Ele aproxima o visitante da própria família.
Todo morador conhece alguma professora, benzedeira, costureira, enfermeira, cozinheira, balconista, comerciante ou guardiã de lembranças. Ao reconhecer esses saberes como patrimônio, o Memória Viva amplia o conceito de história: não é apenas o que aconteceu nos palcos e gabinetes, mas também o que sustentou a vida comum.