
Pessoas
professora e combatente
Maria Stela Rosa Sguassábia
Maria Stela Rosa Sguassábia foi professora rural ligada a São João da Boa Vista e é lembrada por sua participação na Revolução Constitucionalista de 1932.

Biografia
Maria Stela Rosa Sguassábia ocupa um lugar singular na memória cívica de São João da Boa Vista. Professora rural na região da Fazenda Paulicéia, ela é lembrada por ter participado da Revolução Constitucionalista de 1932 usando o nome Mário Sguassábia, em um contexto no qual a presença feminina na frente de combate era vista como exceção. Sua vida começa em Araraquara, em 12 de março, com divergência de ano nas fontes consultadas: algumas registram 1889, outras 1899. Filha de imigrantes italianos, Maria Stela construiu trajetória ligada ao magistério e à vida rural.
Casou-se em 22 de abril de 1922 com José Pinto de Andrade, ficou viúva ainda jovem e criou vínculos profundos com a região de São João. Durante o conflito de 1932, a Fazenda Paulicéia aparece como cenário de mobilização. Fontes narrativas registram que seus irmãos Primo e Antônio se engajaram nas tropas e que Maria Stela cortou os cabelos, vestiu uniforme e seguiu para a frente de combate ao lado de Antônio. Episódios como a retomada de Vargem Grande do Sul, a captura de um comandante adversário e a rendição de um tenente ditatorial aparecem na tradição biográfica, mas podem continuar acompanhados de checagem documental.
Depois da derrota paulista, voltou à vida civil. As fontes indicam que foi afastada do magistério, trabalhou como costureira e, mais tarde, foi reintegrada à vida educacional como inspetora de alunos no Instituto de Educação Christiano Osório de Oliveira. Morreu em São João da Boa Vista em 14 de março de 1973. Em 2024, sua memória recebeu novas homenagens públicas: seus restos mortais foram trasladados para o Mausoléu da Revolução Constitucionalista no Cemitério Municipal São João Batista, e a professora-combatente recebeu homenagem póstuma de instituições de ensino superior da cidade.
Sua trajetória permanece como memória de coragem, ligada ao magistério, à vida rural e à participação feminina em um conflito marcado pela política e pela guerra.
Fronteira, mobilização, memória cívica e vida local durante o conflito paulista. A Revolução Constitucionalista de 1932 costuma ser lembrada como uma grande mobilização paulista contra o governo provisório de Getúlio Vargas. Em São João da Boa Vista, porém, ela precisa ser contada em escala humana. Não apenas como uma data cívica, mas como um acontecimento que entrou nas ruas, nas escolas, nas famílias, nos jornais, nas conversas e nas memórias transmitidas de geração em geração.
O conflito começou em 9 de julho de 1932 e mobilizou cidades de todo o estado. Para São João, sua importância se explica também pela posição geográfica. A cidade está no interior paulista, em região de contato com Minas Gerais e com outros municípios da antiga zona mogiana. Isso fazia com que notícias, tropas, voluntários e temores circulassem com intensidade.
A ferrovia, as estradas, os vínculos comerciais e familiares e a proximidade de áreas de fronteira ajudaram a transformar a guerra em presença cotidiana. Uma página dedicada a 1932 em São João pode evitar dois extremos. O primeiro é reduzir o tema a uma história militar, formada apenas por batalhas, armas, patentes e movimentos de coluna. O segundo é transformá-lo em celebração sem pergunta histórica.
A experiência local foi mais complexa. Havia jovens convocados pelo ideal constitucionalista, famílias preocupadas, mulheres envolvidas em apoio e assistência, professores, comerciantes, autoridades, religiosos e moradores que acompanharam a instabilidade com graus diferentes de adesão e medo. São João aparece em fontes abertas associada à frente de combate paulista e ao setor de atuação da Coluna Romão Gomes, destacamento que ganhou forte presença na memória constitucionalista. A associação é tratada com cautela editorial.
a leitura pode afirmar que a região de São João da Boa Vista aparece em narrativas sobre as frentes de 1932 e sobre a movimentação constitucionalista no leste paulista, mas não precisa afirmar combates específicos dentro da área urbana sem prova documental. O ideal é usar mapas militares, jornais de época, boletins e depoimentos para reconstruir a geografia exata dos acontecimentos. A guerra também pode ser contada por suas marcas posteriores. O 9 de Julho, os desfiles, as placas, as escolas, os nomes de ruas, os relatos familiares e os retratos de combatentes revelam como o acontecimento continuou vivo depois do armistício.
Em muitos lugares de São Paulo, 1932 se tornou uma linguagem de civismo. Em São João, essa memória se mistura à história de professores, estudantes, autoridades locais e personagens como Maria Sguassábia, cuja trajetória abre uma discussão importante sobre a presença feminina na guerra. Primeiro, o contexto estadual: a crise política depois de 1930, a insatisfação paulista, o movimento MMDC, o início do levante em julho e o fim militar em outubro. Em seguida, a posição regional: São João no circuito da Mogiana, na proximidade com Minas e em conexão com cidades como Águas da Prata, Caconde, São Sebastião da Grama, Casa Branca, Mogi Mirim e São José do Rio Pardo.
Por fim, a dimensão local: voluntários, famílias, professoras, arrecadações, jornais, cerimônias e lembranças guardadas em casas e acervos. Uma boa página não precisa resolver todas as lacunas. Ao contrário, pode tornar essas lacunas visíveis. Quem foram os sanjoanenses que se alistaram?
Quais fotografias do acervo local retratam 1932? Há cartas, medalhas, capacetes, fardas ou documentos militares preservados por famílias? Que escolas trabalharam a memória do 9 de Julho nas décadas seguintes? Essas perguntas ajudam o Memória Viva a transformar a leitura em convite público à colaboração.
São João da Boa Vista aparece como cidade atravessada pela história, não como simples cenário. A Revolução de 1932 permite mostrar que a memória local participa de processos maiores. A cidade estava ligada a redes políticas, militares, econômicas e afetivas. A guerra estadual ganhou rosto local quando entrou nas casas, nos nomes, nas fotografias e no modo como as pessoas passaram a contar o que tinham visto, ouvido ou herdado.
Professora rural ligada a São João da Boa Vista e personagem singular da memória constitucionalista de 1932. Maria Stela Rosa Sguassábia entrou para a memória paulista como uma das mulheres associadas à linha de frente da Revolução Constitucionalista de 1932. Mas sua história não começa na guerra. Antes de se tornar personagem de relatos cívicos, ela foi professora primária rural, ligada à Fazenda Paulicéia, em São João da Boa Vista.
Esse ponto é essencial: a guerra tornou sua vida célebre, mas a sala de aula, a estrada rural, o trabalho cotidiano e a comunidade escolar ajudam a compreender quem era a mulher antes do símbolo. A memória de Maria Sguassábia costuma destacá-la como combatente da Coluna Romão Gomes, unidade lembrada no imaginário constitucionalista como “Coluna Invicta”. Em fontes abertas, aparece a narrativa de que Maria atuou armada, foi reconhecida por bravura e depois retornou a São João em condições difíceis. Esses elementos têm força narrativa, mas precisam ser tratados com rigor.
O papel do Memória Viva não é apenas repetir a lenda. pode organizar o que se sabe, indicar o que falta provar e abrir caminho para que documentos locais, familiares e militares completem a biografia. O aspecto mais potente da história é justamente a tensão entre vida comum e acontecimento extraordinário. Maria era mulher, professora, viúva segundo algumas referências, mãe, trabalhadora do interior.
Em 1932, em um conflito marcado por mobilização masculina, ela passou a ser lembrada como presença feminina no front. Ao mesmo tempo, corre o risco de ser reduzida a uma curiosidade: “a mulher que foi à guerra”. pode perguntar como uma professora rural chega à guerra, como a cidade recebeu sua memória, como as escolas trataram sua história e como mulheres sanjoanenses participaram de ações de apoio, assistência, costura, alimentação, arrecadação, enfermagem e preservação da memória. Maria também permite discutir o modo como a memória cívica escolhe seus personagens.
Homens combatentes muitas vezes aparecem como listas, patentes e batalhões. Mulheres, quando aparecem, são convertidas em exceção. A leitura faz o contrário: apresenta Maria como personagem singular e, ao mesmo tempo, como porta de entrada para recuperar outras mulheres de São João que atuaram na vida pública, no cuidado, na educação, na cultura e no trabalho. No plano local, é fundamental conectar Maria Sguassábia a São João da Boa Vista com precisão.
A cidade aparece em sua biografia pela atuação como professora rural e pelo retorno posterior. O texto busca registros no magistério, documentos de escola rural, notícia de jornal, referências à Fazenda Paulicéia, fotografias, túmulo, homenagens públicas e relatos de descendentes. Sem isso, a página corre o risco de depender demais de fontes abertas replicadas entre si. A personagem é narrada em linguagem humana.
Não “heroína” o tempo todo, mas mulher de carne e osso. Alguém que viveu em ambiente rural, enfrentou perdas, trabalhou com educação, atravessou uma guerra e depois teve sua trajetória lembrada, disputada ou simplificada. A melhor página será aquela que permitir ao visitante entender tanto o gesto excepcional quanto o mundo que o tornou possível.
Trajetórias femininas que atravessam educação, arte, política, cuidado, comércio, memória e vida cotidiana. A história de São João da Boa Vista não foi construída apenas por fundadores, políticos, padres, fazendeiros, comerciantes e artistas consagrados. Ela também foi sustentada por professoras, enfermeiras, médicas, escritoras, atrizes, comerciantes, costureiras, benzedeiras, mães, pesquisadoras, lideranças assistenciais, trabalhadoras rurais e guardiãs da memória familiar. Muitas dessas mulheres aparecem em documentos de forma fragmentada.
Outras sobreviveram em fotografias, apelidos, homenagens, receitas, cadernos, cartas, escolas, ruas e lembranças de família. Um leitura sobre Mulheres de São João é amplo e cuidadoso. Não se trata de criar uma lista decorativa, mas de reconhecer que a presença feminina atravessa todas as áreas da vida local. Guiomar Novaes levou o nome da cidade ao circuito internacional da música.
Patrícia Galvão, Pagu, projetou São João na história do modernismo, do jornalismo e da política brasileira. Orides Fontela transformou silêncio, linguagem e pensamento em poesia de alcance nacional. Maria Sguassábia abriu uma porta para discutir mulheres, guerra e memória constitucionalista. Essas personagens já são conhecidas.
Mas A leitura ir além das figuras célebres. Há outras trajetórias que pedem investigação: Anésia Martins de Mattos, Angela Sartori Batista, Chafica Antakly, Clélia Lansac Guaranha, Dirce Felipe Batista, Leonor Aparecida Bovo e Silva, Maria Amaziles de Oliveira Costa, Maria Hilda Leme, Maria José Fusco Corsi Scannapiecco, Maria Leonor Alvarez Silva, Matildes Rezende Lopes Salomão, Odila Blanco Martins de Almeida, Olimpia Ribeiro de Andrade, Ordália Figueiredo Ribeiro Bittencourt e Vera Faria. O site já aponta esses nomes como parte do acervo de personalidades, mas cada verbete precisa ter seu próprio grau de documentação, fonte e campo de atuação.
A leitura assumir que a memória das mulheres muitas vezes chega por caminhos menos formais. Nem sempre há ata, diploma, livro publicado ou cargo oficial. Às vezes há fotografia de escola, caderno de receitas, registro de comércio, entrevista, recorte de jornal, convite de formatura, lembrança de paciente, depoimento de aluno, peça de roupa costurada, remédio preparado, poema manuscrito ou relato de família. Eles exigem tratamento documental, mas ajudam a reconstruir aquilo que a documentação oficial deixou de lado.
Para organizar a leitura, a leitura apresenta blocos temáticos. No campo da educação, professoras e diretoras que formaram gerações. No cuidado, médicas, enfermeiras, farmacêuticas, benzedeiras e lideranças assistenciais. Na cultura, pianistas, escritoras, atrizes, poetas e artistas.
Na vida pública, mulheres que ocuparam cargos, participaram de associações, escreveram em jornais ou atuaram em campanhas. No trabalho cotidiano, comerciantes, costureiras, cozinheiras, agricultoras e mulheres que sustentaram famílias sem aparecer no centro da fotografia oficial. O texto valoriza a memória feminina com firmeza, sem reduzir trajetórias a homenagem superficial. A pergunta central é: o que muda quando São João é lida também pelas mulheres?
A Santa Casa, o consultório, a farmácia, o lar, a cozinha, o ateliê, o palco, o jornal, o cemitério e a praça passam a falar. A cidade deixa de ser apenas sucessão de datas administrativas e vira rede de cuidado, criação, resistência e trabalho. A leitura convida famílias e instituições a colaborar. Quem tiver retratos, cartas, cadernos, diplomas, recortes, objetos, uniformes, fotografias de escolas ou depoimentos pode ajudar a tornar essa memória mais completa.
O Memória Viva também registra autorizações de uso de imagem, identificação correta de pessoas retratadas e contexto de cada fotografia.
A memória sanjoanense também foi construída por professoras, enfermeiras, farmacêuticas, benzedeiras, costureiras, comerciantes, cozinheiras e mulheres que sustentaram a vida cotidiana. Nem toda pessoa importante para uma cidade aparece em monumento, ata, jornal ou placa de rua. Muitas vezes, a vida coletiva é sustentada por saberes discretos: cuidar, ensinar, benzer, costurar, vender, cozinhar, medicar, organizar, acolher, visitar, ouvir, aconselhar, preparar alimentos, manter uma casa comercial, transmitir receitas e preservar memórias familiares. Em São João da Boa Vista, a seção de Personalidades do Memória Viva já aponta nomes que permitem abrir esse leitura: Anésia Martins de Mattos, Angela Sartori Batista, Chafica Antakly, Clélia Lansac Guaranha, Dirce Felipe Batista, Leonor Aparecida Bovo e Silva, Maria Hilda Leme, Maria José Fusco Corsi Scannapiecco, Maria Leonor Alvarez Silva, Matildes Rezende Lopes Salomão, Odila Blanco Martins de Almeida, Olimpia Ribeiro de Andrade, Ordália Figueiredo Ribeiro Bittencourt, Vera Faria e outras.
O foco aqui não é criar uma galeria de celebridades femininas. Esse papel já pode ser cumprido por leituras sobre Guiomar Novaes, Pagu, Orides Fontela, Maria Sguassábia e Mulheres de São João. Esta leitura olha para os ofícios, os cuidados e os saberes cotidianos. Uma professora normalista forma gerações.
Uma enfermeira de saúde pública leva cuidado a casas, bairros e campanhas. Uma médica pioneira abre caminho em ambiente profissional marcado por homens. Uma farmacêutica e comerciante combina ciência, balcão e confiança. Uma costureira veste famílias e conhece corpos, festas, lutos e economias domésticas.
Uma benzedeira guarda saberes de fé, palavra, ervas e escuta. Uma mulher que cria um sabor local, como o sorvete de macaúba associado à memória de Angela Sartori Batista no acervo, transforma alimento em identidade afetiva. Não se trata benzedeiras, costureiras ou cozinheiras como figuras folclóricas. Também não se pode reduzir professoras e enfermeiras a “vocação feminina”, como se cuidado fosse destino natural.
O correto é apresentar esses trabalhos como conhecimento, técnica, responsabilidade, presença pública e contribuição histórica. O balcão de farmácia é ponto de confiança. A escola é instituição, mas também relação diária entre professora, aluno e família. A página explica que muitas dessas trajetórias dependem de memória oral.
Mulheres que atuaram em ofícios cotidianos nem sempre deixaram grandes arquivos. Seus documentos podem estar em caixas de família, cadernos de receita, diplomas, fotografias de formatura, carteiras profissionais, anúncios de jornal, santinhos, receitas médicas, objetos de trabalho, máquinas de costura, livros de ponto, cartas e depoimentos de filhos, netos, alunos, pacientes, clientes e vizinhos. O Memória Viva pode transformar essa memória em campanha de coleta: “Você conheceu uma mulher que cuidava, ensinava, benzia, costurava, vendia, cozinhava ou preservava saberes em São João? A leitura também toma cuidado com hierarquias.
É comum que a história local valorize mais artistas, políticos, médicos homens, fundadores e benfeitores. Esta leitura propõe outro critério: importância social pela presença repetida na vida cotidiana. Uma benzedeira que recebeu centenas de crianças, uma costureira que vestiu famílias por décadas, uma professora que alfabetizou gerações ou uma enfermeira que percorreu bairros podem ser tão decisivas para a memória de uma cidade quanto um grande edifício. O tema permite conexões com saúde, educação, comércio, religião popular, alimentação e mulheres na vida pública.
Pode se relacionar à Santa Casa, às escolas, ao comércio do centro, aos bairros, à zona rural, ao Cemitério Municipal, aos jornais e às fotografias de família. É também uma oportunidade de incluir mulheres negras, pobres, imigrantes, descendentes de imigrantes, moradoras de bairros e trabalhadoras que não aparecem nas narrativas de elite. A primeira é o excesso de sentimentalismo. Frases como “mulheres guerreiras” podem soar genéricas e pouco editoriais.
Melhor dizer o que elas faziam, onde atuavam, que redes criavam e que fontes podem comprovar. A segunda armadilha é a falsa segurança. Quando a documentação é escassa, entrevistas, documentos familiares e registros de trabalho ajudam a dar nome e contexto a essas trajetórias. Ele aproxima o visitante da própria família.
Todo morador conhece alguma professora, benzedeira, costureira, enfermeira, cozinheira, balconista, comerciante ou guardiã de lembranças. Ao reconhecer esses saberes como patrimônio, o Memória Viva amplia o conceito de história: não é apenas o que aconteceu nos palcos e gabinetes, mas também o que sustentou a vida comum.
Fotos
Histórias
Fontes
Referência
Prefeitura Municipal: biografia, atuação como professora rural e traslado ao Mausoléu.
Referência
Ainda falta cruzar com documentação militar, escolar e jornais de 1932.
Referência
As fontes consultadas divergem sobre o ano de nascimento, registrando 1889 ou 1899.
Referência
Arquivo editorial importado: dossie_verbetes_21_a_30_memoria_viva_sjbv.docx.
Acervo
Maria Stela Rosa Sguassábia
Acervo
Maria Stela Rosa Sguassábia
Acervo
Maria Sguassábia: a Mulher que Foi à Guerra
Acervo
A Revolução de 1932 em São João da Boa Vista
O contexto nacional